terça-feira, 30 de julho de 2013

A janela da cozinha da minha mãe...

É virada ao sol, espreita uma praceta sem saída, onde as pessoas circulam sem pressas.
Respira-se um ambiente de bairro. Hoje as caras estão cravadas de rugas, marcas do tempo que passou, provas de uma vida recheada de contrariedades.
Pela mão levam os netos, único sinal de juventude naquelas paragens.
Da janela da cozinha da minha mãe vê-se o parque infantil, antes encharcado de areia que preenchia pequenos quadrados ladeados de cimento onde se dividiam as brincadeiras: num o escorrega, noutro os baloiços, noutro os ferrinhos onde se faziam cambalhotas.

Havia gargalhadas, bocas sujas de gelado, joelhos rasgados pelas quedas mais ou menos aparatosas das tardes inteiras passadas na rua. Havia vizinhos que se tornavam amigos e amigos que se descobriam porta com porta.

A janela da porta da cozinha da minha mãe dá acesso à varanda onde a sua voz ecoava quando me chamava para jantar. Era um coro pegado de mães, uma música boa que punha fim a um dia cheio quando o corpo gritava exaustão em tardes que se prolongavam até ser noite. Era hora de pedinchar: "só mais um bocadinho, por favor!", clamávamos.

Hoje a areia transformou-se em betão, os baloiços deram lugar a cordas entrelaçadas e pneus de carros pendurados. Perdeu-se a cor e o movimento. Já não se ouve o amolador nem o carrinho de gelados. Perdeu-se a graça porque se perderam as crianças.
Hoje reina o silêncio, apenas intercalado pelas passadas vagarosas dos avós que de quando em vez se amparam nos netos.

A janela da cozinha da minha mãe continua de cortinado arredado sempre que é altura de passar a ferro. Ela continua a cantarolar da mesma forma doce e desafinada as músicas com que me acordava todas as manhãs.
O encanto está lá mas apenas porque as recordações continuam vivas...

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